Quarta-feira, 1 de Fevereiro de 2012

MUSEU ACADÉMICO DE COIMBRA

No dia 14 de Janeiro, em Coimbra, no local em título, foi apresentado o livro “Museu Académico de Coimbra – A sua Evolução Histórica”, da autoria do nosso abrantino amigo Rui Lopes, de S. Miguel do Rio Torto.
O “livrinho” (no sentido intimista e afectivo da palavra) refere, com pormenor e com exaustiva citação das fontes, o caminho percorrido desde 1902 até à actualidade, num espaço temporal em que as intenções e as palavras foram adquirindo substancia e tomando forma, contornando dificuldades, tornando-se obra, deixando adivinhar a imensidão do trabalho desenvolvido. De facto, não é pelo volume (nem pela volumetria) que uma obra se afirma e se torna útil, já que a harmonia, a capacidade e o poder de síntese facilitam e favorecem a comunicação e a assimilação da mensagem.
O evento foi patrocinado pela Liga de Amigos do Museu, presidida pelo Dr. Emídio Guerreiro. O Eng.º Teotónio Xavier doou a colecção integral de discos de vinil de Artur Paredes; os familiares do Professor Doutor Manuel Ramos Lopes entregaram um quadro com uma caricatura do Dr. Ângelo Vieira Araújo, autor, que foi, de conhecidos temas da canção de Coimbra.





Deste modo fomos conhecer o museu, instalado no 1º piso do Colégio de S. Jerónimo, no conjunto onde até 1987 funcionou o Hospital da Universidade de Coimbra. O acervo museológico merecerá visita mais demorada, face à sua diversidade, riqueza e simbolismo e à correspondente informação descritiva e histórica. Uma visita que se recomenda e que surpreenderá agradavelmente.
O Dr. Rui Lopes licenciou-se em História na Universidade de Coimbra, onde está a concluir o mestrado, para além de outras actividades sociais, culturais, cívicas e académicas em que se tem envolvido. É o Primeiro Secretário da Liga dos Amigos do Museu Académico.
Fica, também, o registo da sessão de canto, viola e guitarra, a cargo do Grupo Porta Férrea, a

valorizar e a encerrar a sessão com dignidade e esplendor.


























Manue l Paula Maça
manoel.maza@gmail.com

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RIBATEJO, BREVES MEMÓRIAS PESSOAIS

"Do Alto Ribatejo e da Beira Baixa, eles descem às lezírias pelas mondas e ceifas.
Gaibéus lhes chamam".

Alves Redol



I – JANELA ABERTA
Ao longo da década de 60 do século passado as gentes da minha terra demandavam Lisboa, no cumprimento de uma espécie de desígnio, em busca daquilo que a terra madrasta lhes negava, muitas vezes com sonhos e pesadelos dispersos e disfarçados, confundindo-se no meio da modesta bagagem entulhada em cestos de verga. Se bem me lembro, a esperança morava no rosto luminoso do meu pai e o receio habitava nos olhos embaciados da minha mãe.
Com 11 frescos anos lá fui, Ribatejo adiante, empoleirado a granel dentro do velho carro de aluguer do meu saudoso padrinho Barquinha, com a marca Dodge e a matrícula FF-13-66. Esperava-me a chamada Escola Técnica Elementar Nuno Gonçalves, que iria seguir-se aos breves meses da EICA (Escola Industrial e Comercial de Abrantes) e ao quarto alugado na casa do Sr. Luís da B.P., na Rua Luís de Camões, em Abrantes. Não retenho saudades de uma nem da outra, e não tenho, felizmente, insucesso escolar a determinar tal forma de sentir. Há coisas difíceis de explicar racionalmente, mas talvez tivesse querido levar comigo os pinheiros, os pássaros, o rio, e uns pedaços daquele chão de pedras, carquejas e tojos, difíceis de combinar com as cidades, pois há coisas que se agarram a nós. Tardei, porém, a despir o horroroso fato- macaco azul que fui obrigado a usar enquanto aluno (estudante?) da EICA, que recordo como espécie de anátema ou castigo salazarento determinado e imposto pela humildade das origens – as minhas e as dos meus companheiros.
Ao domingo, Lisboa abria as portas, tornava-se manta de retalhos de um Portugal rural derramado, mas, ao menos, o fato-macaco azul da EICA ia ficando para trás. O jardim do Campo Pequeno, com a cervejaria José Ricardo quase na esquina, era o ponto de encontro dos meus conterrâneos que tinham ousado a aventura e o sonho, arrumando-se em casas partilhadas por várias famílias, ocupando sótãos e águas furtadas ou casas de porteira.
O apego às origens, à terra, não se apagava, não se esvaía, talvez que por uma questão de segurança, ilusória ou não. A aldeia era um porto de abrigo imaginário aonde se podia voltar, mesmo sem estar ali, à mão. Lá tinham ficado o Xico do Té, o Luís da Mónica, o Zé Timbela, o Estronca, o primo Josué, e muitos outros, numa aldeia antropologicamente no masculino.
De uma maneira ou de outra, habituei-me a atravessar o Ribatejo, inicialmente em longas e labirínticas viagens, que misturavam o comboio em terceira classe, o autocarro vagaroso e fumarento, o carro de aluguer e os percursos a pé. O Ribatejo havia, pois, de ficar-me entranhado na memória, talvez na carne e na alma virtual
Nesses tempos um carro gasto e usado poderia custar até 20 contos, e os meus conterrâneos lá iam gerindo o fôlego e a exiguidade material dos sucessos. O Vauxhall Wyvern velho e cansado do meu pai custou 16 contos e tinha a matrícula BE-16-41. Outros parentes e amigos tinham veículos como o Volvo “marreco”, o Peugeot 203, o Morris Minor, ou uma qualquer versão do velho Volkswagen.
O ritmo das viagens ocasionais à aldeia aumentava gradualmente: para visitar os mais idosos, para fazer a água-pé, para preparar as sementeiras, para ir à festa anual de Agosto, para trazer uma galinha ou uma saca de batatas... ou para matar saudades, ou para todas as coisas juntas, se não, mesmo, para dar sinais exteriores de uma prosperidade ilusória, ou tímida e pouco exigente. A partida de Lisboa, em grupo, era da Rotunda do Aeroporto. Lá íamos por esse Ribatejo imenso adiante, as velhas aranhas mecânicas saltitando entre os buracos e o alcatrão, aquecendo ou avariando intermitentemente, dando aos mais velhos espaço e oportunidade para beber um copo, afinar os neurónios e atestar a água dos radiadores fumegantes e cansados. Ficaram-me na memória dois locais onde habitualmente se faziam essas operações de manutenção, apesar de, em seguida, alguns carros terem que pegar de empurrão. Digamos que é aí que às vezes me encontro com algumas ausências, particularmente em Benfica do Ribatejo ou junto à ponte da Golegã. E não me recordo de um só conterrâneo, alguma vez, ter confundido vinho com água ou com gasolina, nestas complexas operações a requerer atenção, agilidade e uma mão-de-obra diferenciada.



II - AVIEIROS, GAIBÉUS E FERROVIÁRIOS
Por ironia e por circunstâncias da vida, volvidos muitos anos, deixei Lisboa e fui para uma cidade de província (centro litoral). Viria a passar muitos fins-de-semana em casa do meu amigo Joaquim, em terra de comboios e de ferroviários, com o Tejo ao lado. Por assim dizer, ficava ainda mais distanciado o Ribatejo de estradas esburacadas que conhecera enquanto criança e adolescente; penetrava, agora, num Ribatejo interior, com outras veredas e diferentes caminhos.
Muitas vezes, junto à lareira do Joaquim, depois do jantar servido pela Dona Preciosa, entre o digestivo da noite e o fumo aromático do cachimbo, com um jornal derramado ao lado, eu recordava as histórias onde o tio Luís e o meu pai me falavam na vida dura dos gaibéus e dos avieiros, sendo-lhes difícil adiantar explicações políticas ou sociológicas que fossem além das suas experiências pessoais de adolescentes adiados e resignados, entregues à colheita do arroz, na zona de Santarém, de sol-a-sol. Nestas conversas retrospectivas, eu adivinhava que no dia a seguir o Joaquim avançaria comigo pela Quinta da Cardiga, pela Azinhaga, pelos campos férteis da Golegã, e me levaria até junto de amigos que falavam da dureza e das incertezas da vida, naquela linguagem que o meu pai e o tio Luís me haviam deixado na memória e que eu passava a entender melhor, embora também soubesse que havia quem dissesse que Portugal era a inveja da Europa.
Por vezes, o amigo Joaquim colocava na mesa do almoço ou do jantar um vinho tinto da Quinta da Cardiga ou um branco fresco de cor dourada, da Adega Cooperativa da Chamusca. Não discutíamos Baudelaire, mas lá aconchegávamos o estômago e a mente, em saborosos momentos sem angústias existenciais ou metafísicas. Depois, era o doce aconchego do quarto que me esperava no primeiro andar daquela casa, numa rua sossegada da cidade ferroviária, onde eu saboreava a irrepreensível pontualidade de um comboio que passava a apitar pelas cinco horas da manhã.
O Joaquim guardava dentro de si, em estóico silêncio e impressionante secretismo, uma doença que lhe corroía as entranhas e de cuja dimensão tardiamente me apercebi. Como estas coisas têm limites, o tempo mostrou as garras da voracidade, e veio a partida inesperada, dolorosa, desnecessária, precoce e inexorável - uma perda com a marca do irremediável. Fiquei mais pobre, e o Ribatejo voltou a ser um espaço de passagem, com mais marcas de ausências!
Tudo isto e outras circunstâncias naturais da vida puseram termo a esses fins-de-semana e aos saudosos eventos que a memória retém. Os comboios continuam a sulcar os carris ao longo dos dias e das noites (apitando pelas cinco horas da manhã, se calhar) e o Tejo continua a espreguiçar-se majestosamente, quase ali ao lado.
Do vinho da Quinta da Cardiga, com a cor do sangue, nem sinais; o branco frutado, de cor dourada, da Adega Cooperativa da Chamusca, também não volta à mesa do Joaquim, porque o Joaquim também não volta.

III – AO SERVIÇO DA PÁTRIA
Deixei para trás a minha incursão de 3 meses, como recruta da Escola Prática de Cavalaria, em Santarém, no quente Verão de 1972, com a guerra colonial ao lado. Um espaço temporal que não deixou saudades, embora me pareça ter sido bom a marcar passo ou a fazer manobras essenciais para a salvação da pátria, como “esquerda e direita a volver” ou “apresentar arma”, e, até, a “queda na máscara”. Sem ressentimentos pessoais e sem prejuízo da compreensão que é devida, assumo que muitas vezes os instrutores até tinham semelhanças com os humanos, sem excluir o tenente a quem seria injusto chamar uma santa besta (era bípede), que se atirava como capão assanhado aos instruendos que marchavam mal, corrigindo-os à bofetada, em nome do cargo que cabia a um e da missão suprema que esperava o outro (um dia o outro ficou a sangrar, dos lábios ou dos dentes, embora não consiga recordar se ficou a marchar melhor, por efeitos da pedagógica bofetada). Mas este é o Ribatejo que não importa recordar, apesar de as coisas serem ainda mais refinadas em Tavira, onde decorreu a segunda fase da instrução. Embora tenha ficado no grupo dos bem classificados, princípios éticos, morais e de consciência determinam uma expressão saudosa de solidariedade para com os companheiros desta caminhada inglória, iniciada em Santarém (com o Tejo ao fundo). Fica, então, um olhar à memória do Sousa (de Montemor-o-Novo) e do Freitas (dos Açores), que acabaram por deixar a vida no teatro da guerra, em Moçambique.


IV – E AGORA?
Resta-me, então, o convívio com a imensidão docemente acidentada da campina ribatejana, de mãos entrelaçadas no passado e no presente, saboreando melão e vinho numa banca em madeira, à beira da estrada, numa consistência a que as cores, a luz e o calor do Verão dão alma e vida, sem que o Joaquim se aperceba de quantas vezes também viaja comigo. Imperceptivelmente!

29 Janeiro 2012


Manuel Paula Maça



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Domingo, 11 de Setembro de 2011

O CABELEIREIRO DO SALÃO PARIS



O CABELEIREIRO DO SALÃO PARIS


(Memórias)







"Se fosse fosse um bocadinho mais cedo
ia ver o mar à Praia Grande".

António Lobo Antunes





A chuva desta noite de Sexta para Sábado transbordou para as estradas, enchendo-as de ondas suaves; as folhas amarelas do Outono plantado à beira da estrada da Figueira da Foz bailavam no negro do alcatrão.
Os reflexos dos olhos eléctricos dos automóveis podiam ser fachos de farol de mar a alumiar sempre em frente em vez de andar à volta, ou então poderiam ser grandes itinerários luminosos de fósforos a riscar em caixas gigantescas.
Com a luz amarela dos faróis do automóvel, a chuva era, pois, como que o conjunto harmónico das colunas desprendidas do céu dos poemas do Carlos Eugénio, ou então as cordas dos instrumentos da Catedral da Angústia do António Victorino de Almeida. E tudo com sabor a Outono! E tudo com a gravidade de quando é de facto Outono – sendo Outono por dentro e por fora. E à volta também.
À medida em que se avança pela noite, o movimento de vaivém das escovas dos limpos vidros lembram braços possantes de nadador; ou então remos de um barco batendo com precisão na água, numa cadência muito certa e sincopada. Momentaneamente parece que navegamos nesse mar que se desprendeu do céu ou que saltou para a estrada; vamos num barco. E, assim, as luzes dos outros automóveis em movimento, enquanto faróis marítimos, estão bem orientadas: em frente, andando sempre. Um pouco como a vida.
E ocorre a subida das Cortes para a Barreira, umas horas atrás, com a chuva a filtrar a luz dos candeeiros dependurados no escuro, à beira da estrada em ziguezague. Do lado esquerdo, uma casa singular, mesmo ao lado da noite, numa encosta onde os sonhos vão desembocar ao rio: é a casa do cabeleireiro (sim, cabeleireiro) do Salão Paris, poeta e sonhador, engenheiro naval de Fernando Pessoa, hábil artífice da tesoura e da navalha, contando histórias para distrair os clientes, ou distraindo-se com a solidariedade de ouvir histórias dos clientes! Um pouco como o velho Vicente da Barbearia Lis, há muitos anos, na Avenida Almirante Reis, em Lisboa, mesmo à porta do Metropolitano no Intendente! Dois artífices de poemas de ver ao espelho na cabeça das pessoas: acha que rima bem assim? Quer mais uma sílaba métrica? Poemas feitos com régua e compasso, ou com maquinetas mais complicadas, fixados com verniz contra a corrosão atmosférica (enquanto não o há para a corrosão mental).
É que a casa do cabeleireiro do Salão Paris, na estrada da Barreira, é, também, um pouco de manufactura mental altamente susceptível de interpretações metafísicas: uma casa que lembra uma cabeça penteada com risco ao lado. O telhado negro são duas madeixas abundantes de cabelo, com risco feito na ponta da varanda, onde a calha da água faz um recorte; assim, as faixas de preto na escada exterior oblíqua, de alto a baixo, são franjas despenteadas a cair geometricamente pela testa, quase por cima dos olhos que são as janelas.
E todo o cenário desta noite é um extraordinário povoamento – é o título do livro do Carlos de Oliveira "Finisterra, Povoamento e Paisagem". Cá está!... É um cenário completo! "Finisterra", cabo de mar feito equador de convenções sociais, separação de hemisférios e de latitudes (ou lati-atitudes) mentais diametralmente opostas (sim, porque o Cabo Finisterra é muito mais que a metafísica do Álvaro de Campos e dos compêndios de Geografia).
"Paisagem". Existe! É a noite; a chuva; o mar no negro do alcatrão; o velho Vicente de há muitos anos, na barbearia da Avenida Almirante Reis; a casa do cabeleireiro do Salão Paris em forma de penteado com risco ao lado... e uma saudade muito grande!
E uma sensação de que quando o perto é longe, o longe é um pesadelo terrível, um itinerário de circum-navegação em direcção oposta a nós próprios.
"Povoamento". Completo o título do Carlos de Oliveira!... Uma noite povoada, porque o nada é alguma coisa.
"Finisterra, Povoamento e Paisagem". Um pouco como no Teixeira de Pascoais, à maneira de solidariedade: um povoamento de ausências!

5.11.83

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Quinta-feira, 1 de Setembro de 2011

FARINELLI: A IMORTALIDADE DE UM CASTRADO


FARINELLI OU A IMORTALIDADE DE UM CASTRADO

Em 2002 decorreu no Centro Cultural de Belém a VI Temporada de Concertos da Portugal Telecom, iniciada com uma série de obras evocativas da memória de Farinelli, o mais célebre castrado do século XVIII.
A iniciativa trouxe-nos algumas das mais belas melodias que o sopranista cantou nos palcos de ópera da Europa e na corte de Filipe V de Espanha. Mas não apenas.
Na ocasião, aproveitamos o pretexto para tentar abordar um assunto histórico de que pouco se fala, espécie de tabu incómodo ou maçador ante o qual os defensores da moralidade e da dignidade humana (tão lestos, às vezes!) parecem ter andado, no mínimo, distraídos, com destaque para a Igreja Católica.
É o texto dessa abordagem que decidimos inserir, porque a História não pode apagar-se.


Retrato a óleo sobre tela, por Jacopo Amigoni


UM CASTRADO AO SERVIÇO DE FILIPE V DE ESPANHA

Imagine o leitor que a altas horas da noite é acometido de insónias. Acontece ao comum dos mortais! Em alternativa à desgastante e infindável contagem de horas e minutos, pode optar por ler uma revista ou um livro, ou ligar o rádio e ouvir uma música... ou, até, rezar uma oraçãozinha para apaziguar o espírito.
As coisas não foram sempre assim, pois a tecnologia evolui e a estratificação das classes e os hábitos sociais vão-se modelando. Filipe V de Espanha não tinha rádio, por isso chamava o castrado Farinelli, cantor da corte, que faria ecoar a sua voz melodiosa de sopranista por alas e corredores do palácio real, noite ou madrugada adiante.
A castração tem raízes culturais, que divergem nos tempos e nas motivações. Mas foi a Europa culta e civilizada (a "civilização superior" de que falou Silvio Berlusconni), que fez da castração de crianças do sexo masculino uma prática hedionda e aviltante. As mutações morfológicas e psíquicas da criança castrada, eram numerosas, e o objectivo era impedir o desenvolvimento normal da voz, que seria trabalhada e adaptada à dignidade do cântico religioso. Os palcos da ópera viriam depois... ou não!
De seu verdadeiro nome Carlo Broschi, Farinelli viveu entre 1705 e 1782. Oriundo de uma família da pequena nobreza da Apúlia, teria sido castrado pelo próprio pai, entre os 7 e os 8 anos de idade. Estudou em Nápoles, onde começou a afirmar-se aos 15 anos, nos cânticos religiosos. Aos 25 anos era reclamado e disputado por cortes e teatros da Europa. Os livros dizem que tinha tudo (ou quase) a seu favor: talento, beleza física, formação moral, inteligência, humildade, altruísmo. Conheceu o êxito em Londres, Viena, Paris, e ficou conhecido como o “divino Farinelli” e “o maior castrado do universo”.
Aos 32 anos Farinelli acedeu ao convite de Isabel Farnésio, rainha de Espanha, convicta de que a voz do sopranista (castrado) conseguiria aliviar as crises de neurastenia e agressividade do rei Filipe V, que não seria parco em desancar com afinco nos cabedais de sua extremosa e real esposa. O primeiro encontro de Filipe V com Farinelli deu-se numa noite de Agosto de 1737, e os resultados excederam as expectativas. Ficaram amigos e confidentes.
Farinelli ficaria na corte de Espanha durante 22 anos; mesmo depois da morte de Filipe. Aí chegou a conviver com Maria Bárbara de Bragança, filha de D. João V de Portugal, dada em casamento ao futuro Rei Fernando VI. A infanta Maria Bárbara, a “bexigosa”, é, aliás, caricaturada por José Saramago em “O Memorial do Convento”, mormente enquanto discípula de Domenico Scarlati, na ocasião também remetido para Espanha, onde continuou a afirmar-se como músico talentoso e jogador de batota inveterado.
Com a ascensão de Carlos III, Farinelli foi compelido a retirar-se. Regressou a Itália e instalou-se no seu palácio perto de Bolonha Aí viveu desafogadamente o resto da vida, rodeado dos sobrinhos e criados, a quem testamentou o património.



CASTRAR PARA ENALTECER O DIVINO

Jacques Bourgeois escreveu que “paradoxalmente, é à Igreja que se deve a origem dos castrados” (1). Como prelúdio de explicação, é referida a passagem de uma Carta de São Paulo aos Corínteos, que diz: “calem-se as mulheres nas assembleias, pois não lhes é permitido falar”. Segundo a interpretação que prevaleceu para estas palavras, as mulheres não deveriam participar nos cânticos religiosos. De igual modo, o acesso aos palcos de ópera lhes seria vedado até bastante tarde, pela Inquisição e por monarcas.
Na Idade Média, muitas passagens destes cânticos eram interpretadas por grupos numerosos de crianças do sexo masculino. Mas as crianças cresciam, desenvolviam-se, as vozes alteravam-se e era necessário recrutar e ensinar outras, em ciclos que se repetiam dispendiosamente. Neste quadro, combinado com as exigências artísticas da polifonia da Renascença, tornaram-se necessárias mais e diferentes vozes, para melhor aproximar os humanos do belo e do divino. Apostou-se mais em vozes masculinas, e em Espanha desenvolveu-se uma célebre escola de falsetistas (homens que imitavam o timbre feminino).
O recurso aos falsetistas foi insuficiente, e a castração seria o método eleito, a aposta decisiva, para tentar obter sopranistas e contraltistas, para substituição das vozes femininas. Em 1662 já Francesco Sato teria lugar na Capela Sistina, num cortejo de castrados que terminaria em 1913, ainda com Alessandro Moreschi no cargo de director da música papal. Acrescente-se que há gravações com a voz deste último castrado, embora (in) devidamente preservadas.
Normalmente, as crianças eram recrutadas entre famílias numerosas e humildes, e a castração era a esperança de um futuro brilhante, com honrarias e fortuna, uns anos mais tarde. Os conservatórios proliferavam, tendo ficado particularmente famosa a escola napolitana, onde as crianças arrancadas à infância e à família teriam de “cantar todos os dias, durante seis anos, incansavelmente” (2). De um ponto de vista musicológico, parece que estes novos recursos vocais se adequariam às exigências do barroco.
Mas frequentemente as coisas não davam certo, e a maior parte dos candidatos teria que remeter-se a uma vida solitária e miserável, às vezes com um cargo menor numa das capelas que proliferavam. Como escreveu António Victorino d’Almeida (3), “o aflautado da voz degenerava num guinchar fanhoso, e os desgraçados eram mandados à vida, entregues à sorte e à chacota eterna...”.
A castração seria executada um pouco por toda a Itália, frequentemente numa espécie de “clandestinidade consentida”. Ainda assim, ficaram famosos os cirurgiões de Bolonha, donde a própria Alemanha chegou a mandar vir cirurgiões para castrar crianças locais, pois também importava fazer contas e saía mais barato...
O desenvolvimento da ópera, a partir do século XVII, viria a conferir a uma minoria de castrados a possibilidade de subir aos palcos, onde poderiam ganhar fama e dinheiro, fazendo sobretudo papéis de mulheres. As rivalidades entre eles eram notórias e ficaram registados incidentes envolvendo artistas como Carestini, Senesino, Farinelli, Caffarelli, Matteuccio, Cusanino, entre outros. As rivalidades profissionais aumentaram no final do século XVIII, quando as mulheres (sopranos) começaram a pisar os palcos e a disputar papéis, dotes vocais e artísticos, com os castrados (sopranistas, sobretudo). Ainda assim, surgem registos curiosos de respeito e admiração correspondida, e não resistimos a deixar o exemplo que foi o encontro breve mas amistoso da nossa Luisa Todi com o castrado Marchesi. Importará reter que estas rivalidades ocorrem quando ópera de corte, ópera comercial e indústria de espectáculo já se diferenciam e distinguem, podendo conferir maior ou menor prestígio ou notoriedade.


OS CASTRADOS EM PORTUGAL

Na pesquisa que fizemos, na bibliografia referenciada e noutra de que dispomos, não encontramos referência a castrados portugueses.
Porém, os castrados italianos tiveram papel determinante no desenvolvimento e na afirmação do teatro lírico em Portugal, como cantores e como empresários.
Em 31 de Março de 1755 era inaugurado o Teatro do Paço da Ribeira (A Ópera do Tejo, ou Caza da Ópera), com a peça “Alessandro nell’Indie”, do napolitano David Perez. Diz-nos Manuel Carlos de Brito (4) que “o elenco reunido para essa estreia, constituído por Caffarelli, Galieni, Luciani, Morelli, Raaff e Reina, era, sem dúvida, difícil de superar na altura”. Falamos de homens, muitos deles castrados, pois eram excepção os baixos e os tenores.
A Ópera do Tejo foi abaixo com o terramoto de 1755. Ficaram os teatros da Ajuda, Salvaterra e Queluz, e até poderíamos falar do teatro particular do Conde de Farrobo, no seu palácio das Laranjeiras (ficará para depois), mas o esplendor da ópera em Portugal viria com o Real Thetatro de S. Carlos.
O Teatro de S. Carlos foi inaugurado a 30 de Junho de 1793, com a ópera de Cimarosa La Ballerina Amante. A este propósito, Joel Costa (5) esclarece que havia “um elenco de castrados em que sobressaía Caporalini”. Uma vez mais, acrescentaremos.
Com a subida ao trono de Dª Maria I as mulheres voltaram a não poder ir ao palco. Embora a regra tivesse sido violada algumas vezes, os papéis femininos continuariam a cargo dos sopranistas castrados. Por pouco tempo, porém.
Caporalini e Crescentini continuariam a cantar e a dirigir por mais algum tempo, convertidos simultâneamente em empresários do Teatro. Caporalini acabaria por partir para Génova, tendo Crescentini ficado até 1803.
Com o acesso das mulheres ao palco do S. Carlos, naquilo a que modernamente se poderia chamar “guerra de sexos”, com Crescentini punha-se o ponto final na história dos castrados sopranistas em Portugal.

Manuel Paula Maça


Fev. 2002, revisto em 1 Setembro 2011


manoel.maza@gmail.com



1 - L’Opéra, des origines à demain, Paris, 1983

2 – História dos Castrados, Patrick Barbier, Livros do Brasil, Lisboa 1991.

3 - Música e Variações, Lisboa, 1987.

4 – Revista São Carlos, n.º1, 1986.

5 - Teatro São Carlos, breve resenha histórica, Secretaria de Estado da Cultura, Lisboa, 1993.

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Domingo, 13 de Fevereiro de 2011

O FADO DO FADO V





COIMBRA TEM MAIS ENCANTO

A partir de meados do século XIX parece ter-se assistido a alguma divulgação do fado por todo o país. Tinhorão (por exemplo) avança tal asserção: “Desde a estruturação do género popular como canção solo, com acompanhamento de guitarra em menor, já desvinculada da dança – o que permitia ao cantador variar as inflexões da voz, esquecendo as nuances psicológicas do canto -, o fado começara a ultrapassar a sua fronteira original circunscrita aos redutos proletários de Lisboa”. Estudantes, pequenos fidalgos de província e boémios teriam sido agentes decisivos neste processo. Porém, à excepção de Coimbra, o fado pouco mais terá deixado para além de leves marcas ou referências descaracterizadas que hoje divisamos nos repertórios de alguns grupos folclóricos ou de cantares, de que já deixamos exemplo ao referir o grupo Sons da Lena (Batalha), a que acrescentaremos o “Fado da Taberna”, interpretado pelo Rancho Folclórico Os Peneireiros, de Martinchel.
Ainda assim, as nossas fontes deixam-nos nota da presença do fado no Porto. Camilo Castelo Branco (note-se que nasceu em Lisboa, na Rua das Gáveas, Bairro Alto) deixou o romance Eusébio Macário, com muito de ambiente fadista, por assim dizer. Pinto de Carvalho também registou alguns nomes de executantes nortenhos: Pedro Marié, cantador famoso, dado ao improviso de cantigas obscenas; Marcolino do Porto, um pobre músico ambulante; Carlos Pistótira, empregado no Teatro de S. João, cantador sem produção própria.
Mas já nos referimos a algumas figuras que ao longo do século XIX passaram por Coimbra em termos de vida académica, cujas aptidões vocais e musicais ficaram registadas. Homens como João de Deus, José Dória e José Maria Anchieta são apenas exemplos de quem levou e trouxe às costas - ou na alma - a banza, a viola ou a guitarra. E dizemos "homens" porque o fado de Coimbra era no masculino, num tempo e numa sociedade em que às mulheres estavam interditadas determinadas funções, cultura, formação e vida social, posto que bastaria que fossem boas esposas e boas mães.
Em Coimbra fixavam-se meses a fio sucessivas levas de estudantes, alguns deles predestinados a cursar a vida boémia. Foi o caso de Augusto Hilário da Costa Alves (n. 1864), que em 1890 se matriculou no 1º ano do curso de Medicina. Exímio tocador de guitarra e senhor de uma bela voz de barítono, o seu nome galgou os muros de Coimbra e espalhou-se pelo país. Fez actuações na Figueira da Foz, em Espinho, Viseu, entre outros lugares. Consta que participou numa festa de homenagem a João de Deus, no Teatro D. Maria II, em Lisboa, e que no final do espectáculo, perante enorme apoteose do público, atirou para o meio da multidão a sua guitarra, de que nunca mais nada se soube. O nosso Nobel da Medicina, Prof. Dr. Egas Moniz, teria estado nesta festa.
Hilário foi animador de serões académicos, cantando poetas como Guerra Junqueiro e António Nobre, para além das composições de que era autor e da sua grande capacidade de improviso. Mesmo estudando devagarinho, chegaria ao 3º ano do Curso de Medicina, tendo morrido em 3 de Abril de 1896, aos 32 anos, vítima de uma “ictericia grave hypertermica”, ao que achamos escrito.
O fado dos estudantes de Coimbra surge e afirma-se, pois, com novas sonoridades instrumentais, com vozes de barítono e de tenor, com fino sabor literário, com feição lírica e com uma elevação de conceitos e erudição que definitivamente o distinguem do seu antepassado popular de Lisboa. Surgem as serenatas para encanto poético das amadas, as baladas de feição trovadoresca e, mais tarde, a canção de vigorosa contestação política e social. Em vez de choramingar com pieguice as amarguras ou as intrigas mundanas da vida, o fado de Coimbra vinha e ficava para fazer embalar ou soluçar à guitarra o vigor das paixões generosas ou, mesmo, os seus desaires amorosos.

Manuel Paula Maça

manoel.maza@gmail.com

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Sexta-feira, 11 de Fevereiro de 2011

O FADO DO FADO IV

Adeus Parceiros das Farras, dos Copos e das Noitadas


Amália Rodrigues (n. em 1920) emerge como profissional do fado na década de 30 do século XX. Em 1949 António Ferro levou-a à presença de Salazar, e em pouco tempo o fado passou fronteiras. Merecem-nos respeito a humildade das suas origens e a sua voz, que viria a correr mundo, ainda que pelas mãos do regime vigente. Em 1968, em Madrid, recebeu das mãos de Isabel Franco (cunhada do ditador espanhol) a condecoração de “Isabel, a Católica”. Foi a própria Amália que deixou a razão na sua biografia: “por eu cantar bem a música espanhola”.
Não iremos indagar sobre a música espanhola cantada por Amália, embora seja conhecida a incaracterística cantiga dos “caracóis e dos espanholitos”, e as menos divulgadas cantigas de amigo (galaico-português), como “pois nossas madres van a San Simon...”.

Fizemos este salto temporal para deixar algumas questões. Que voltas, que caminhos percorreu o fado, ao longo do século XX? Onde ficou a cantiga de viela, onde está a suposta canção nacional? Por onde andou a cantiga popular urbana de Lisboa, chamada fado, até desaguar nos circuitos comerciais, onde o vinho tinto cedeu o lugar ao uísque, na função de regar a goela?
Vimos como o fado chegou às classes média e alta, ou seja, como o produto das classes baixas passou para o consumo das classes altas. É nesse contexto de transformações imensas que surge a já referida profissionalização de músicos (executantes e mestres) e de cantadores, se não, mesmo de compositores de músicas e de letras, com uma espécie de "mão-de-obra artística". Compõem-se e vendem-se partituras de fados para piano, e, em 1848, instala-se e notabiliza-se a Casa Sassetti. Lisboa começa a dispor de salas de espectáculo com a designação de teatros: dos Condes, do Bairro Alto, do Ginásio, do Príncipe Real, da Rua do Salitre (que daria o “Variedades”), da Trindade.... Muitas delas são espaços polivalentes, e o próprio teatro de revista irá render-se à viola e à guitarra, e às vozes que se combinam, no masculino e no feminino. Surgem também, em consequência, os empresários.
São muitos os registos exemplificativos disponíveis. Recorremos ao já referido Tinhorão (8), que refere o empresário Ernesto Desforges, que alugou o Teatro Lisbonense, promovendo espectáculos orientados pelo mestre guitarrista João Maria dos Anjos: “no primeiro tocaram apenas 12 guitarristas, no último eram já 50”. Dos nomes associados a estes espectáculos ficariam desde logo para a posteridade o actor Taborda, Rosa Damasceno, Ribeirinho e Josefa de Oliveira. Quanto a João Maria dos Anjos, que fora sapateiro em Alfama, chegaria a professor de guitarra do futuro rei D. Carlos, numa carreira e num percurso de fazer inveja a executantes como o Luís Velhinho, mais conhecido por ter uma casa de burros de aluguer no Poço do Borratém.
Estão, pois, instalados os interesses comerciais, e definitivamente adoptadas e agarradas, como matéria-prima, as palavras que rimam com guitarra: farra, garra, bizarra, samarra, e poucas mais. Bons poetas viriam, também, a aparecer ou a ser adoptados.
Mas o fado viria a ter que enfrentar outros géneros musicais no teatro de revista, num momento em que os discos já circulavam no mercado. O período pós-guerra (1914 - 1918) trazia similares estrangeiros ligados ao jazz-band, que muitas vezes eram preferidos pelos empresários, e que o público acolhia com agrado. A "Sociedade das Canções" aproveitaria para esgrimir contestação ao fado, mas este acabaria por resistir, sobreviver e afirmar-se. Consta que Hermínia Silva, intérprete e actriz, teria sido determinante neste processo, na Lisboa da época.
A par do teatro, embora com menor expressão, veio a ajuda do cinema. Data de 1896 o breve documentário "O Fado Batido", com a duração de 5 minutos. Em 1931 viria "A Severa", primeiro filme sonoro português, dirigido por Leitão de Barros. Em 1933 viria "A Canção de Lisboa", de Cottineli Telmo, com Vasco Santana, Beatriz Costa e António Silva. Outros filmes musicais viriam, embora tenhamos que ser cautelosos e separar as temáticas do fado e das marchas de Lisboa, estas tanto ao gosto do Estado Novo, a par do pseudo-folclore do grupo "Verde Gaio", criado pelo regime.
Com o passar dos anos foram surgindo as associações e os clubes de bairro, e os restaurantes ou casas de fado. Permanecem, na memória ou de facto, casas como a Adega Machado, a Márcia Condessa, a Adega Mesquita, o Senhor Vinho, o Faia, o Solar da Hermínia e muitos outros. Modernamente surgiram os pubs.
São determinantes o desenvolvimento das tecnologias que vão permitindo gravações de som e o aparecimento das estações de rádio, estas a partir de 1935.
Se o fado não se subordina aos interesses comerciais, há, pelo menos, uma forte relação de cumplicidade, e teremos que entendê-la. O tempo não parou e o fado-canção também não tardou a afirmar-se. Na década de 60 Carlos do Carmo (por exemplo) gravou diversos discos cantando fados com acompanhamento de orquestra dirigida pelo maestro Jorge Costa Pinto (Editora Tecla). Pela mesma época, Amália Rodrigues gravaria "Povo que Lavas no Rio" (de Pedro Homem de Mello) e outros fados com acompanhamento de viola e guitarra... e de saxofone (o famoso sax-tenor Don Byas).
Não pretendendo deixar, propriamente, excessivo juízo opinativo sobre o assunto, será temeridade falar do fado como a canção nacional. Foi (é?), sem dúvida, a canção popular urbana de Lisboa, sem esquecer a variante coimbrã, com o seu inquestionável valor histórico. De resto, parece-nos subsistir uma perceptível pobreza de letras, e frequente ausência de repertório próprio por parte dos seus intérpretes, por vezes (ou cada vez mais) habilmente ultrapassada pelos denominados "arranjos musicais".
Encerramos com uma transcrição do diplomata inglês Rodney Gallop, que foi grande estudioso da música popular portuguesa. Em 1937 escrevia assim: "Não posso considerar o fado senão como síntese, estilizada por séculos de lenta evolução, de todas as influências musicais que afectaram o povo de Lisboa". E acrescentava: "No ritmo sincopado pode discernir-se a influência de danças exóticas, da África ou do Brasil, populares em Lisboa desde que o batuque foi introduzido...".
Seja como for, é com saudade que recordamos um jantar com fados na noite lisboeta, há alguns anos, entre amigos. Adivinhamos que até a sábia e esclarecida Condessa de Ficalho diria que um fadinho em boa companhia vai sempre bem.



Imagem Tofa Pacote Açucar

Manuel Paula Maça

manoel.maza@gmail.com

(continua)

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Terça-feira, 8 de Fevereiro de 2011

O FADO DO FADO III

Fado: Cantiga Social e Estranhas Formas de Vida







Chorai, fadistas, chorai,
Que a Severa já morreu!
Foi o que Vimioso ouviu
Uma manhã, quando s'ergueu.

Por fado ou sina, coube à fadista Maria Severa Onofriana papel determinante no processo de relacionamento entre a baixa sociedade lisboeta e a nobreza e a burguesia. Esta "meio-soprano do conservatório do vício" notabilizou-se por ser uma mulher bonita, que batia, atirava e cantava o fado; empinava uns copázios de tinto, para matar tristezas; fumava o seu cigarro, não sabemos se em público, pois não seria vulgar nas mulheres da época; tinha os seus amores mais ou menos recatados ou escandalosos, complexos e atribulados.
Pinto de Carvalho diz que em 1850 já não era viva. Porém, actualmente tornou-se corrente a indicação de que nasceu em 1820 e que faleceu a 30 de Novembro de 1846. Teria expirado numa enfermaria de hospital, com tuberculose, embora a tradição atribua a sua morte a "uma indigestão de borrachos regados com boa pinga". Foi sepultada no cemitério do Alto de S. João, na vala comum. À data, sua mãe (a Barbuda) teria entre 56 e 58 anos. Mais tarde, no feminino, viria a ganhar fama de boa cantadora a Cesária de Alcântara, que seria engomadeira e teria vivido fora do mundo da prostituição.
São os amores com o Conde Vimioso que levam a Severa às festas da nobreza e da burguesia. Consta que lhe pôs casa na Rua da Bemposta e que vinha muitas vezes buscá-la de sege, chegando a levá-la para o seu palácio do Campo Grande; outra vez, e por exemplo, levou-a em adequada comitiva para uma tourada que o Marquês de Nisa ofereceu na sua quinta da Foz, em Salvaterra-de-Magos, pelo S. João de 1845.
É deste modo que o fado começa a entrar nos salões ou a fazer parte das festas à porta fechada ou nas praias da moda (zona de Sintra e Ericeira), com adesão da burguesia e da nobreza. Pinto de Carvalho diz que entre 1868 e 1869 surgia a nova fase do fado: aristocrática e literária. O Marquês de Castelo-Melhor tocava guitarra e cantava o fado desde os seus tempos de estudante em Coimbra; convivia facilmente com outras classes sociais; também apreciava o toureio, sendo um ginetário de primeira ordem e sustentáculo da antiga escola portuguesa de cavalaria, como a entendia o Marquês de Marialva. D. José de Almada e Lencastre (escritor e jornalista) teria sido bom cantador de fado. Do próprio João de Deus chega-nos a indicação de que teria sido tocador de banza, cantor e poeta, enquanto estudante em Coimbra. José Maria Anchieta (futuro explorador africano) também se teria celebrizado no tocar da guitarra em terras do Mondego. Entre executantes ou amadores encontramos mais nomes: Conde de Oeiras; Dr. José Dória, tocador de viola em Coimbra; Conde da Anadia, distinto amador do fado; Marquês de Valença, distinto pianista, pai do Conde de Vimioso. A Condessa de Ficalho também ficou descrita como grande apreciadora do fadinho.


O Guitarrista




Importará dizer que a política do Movimento Regenerador, chamada dos “melhoramentos materiais”, instaurada em 1851, também teria dado o seu contributo à lenta mudança de costumes e de mentalidades, vindo também a fornecer novos temas ao fado.
Assim e aqui começaram também a ser convidados ou contratados para festas tocadores de banza, viola e guitarra, iniciando-se um percurso que, volvidos alguns anos, haveria de levar à profissionalização de músicos e cantadores, não esquecendo os mestres do ensino da viola e da guitarra. Lá iremos, a propósito do teatro, dos espectáculos para o grande público e das gravações de discos para gramofone. Sim, porque o cinema viria mais tarde e a rádio apareceria apenas em 1935.
Mas se, aparentemente ou de facto, o fado se elevava gradualmente em termos de estatuto social, o mesmo não seria válido nem automático para tocadores e cantadores, apesar de muitos terem embandeirado em arco no seu aspecto exterior, com novas poses e novas vestimentas, como as “jalecas à polca”, nem sempre isentas de algum ridículo e a alimentar rivalidades. Um autor da época escrevia: “Desde que os fidalgos e janotas gostam de ser fadistas, estão os fadistas a querer parecer janotas” (8).
De facto rivalizam, por assim dizer, a antiga e a nova fase do fado, e algumas letras chegam a reflectir o saudosismo do fado popular. E no registo discográfico da recolha do grupo Sons do Lena (7) encontramos o Fado Marcado, de que retiramos duas quadras:

Ó fado que foste fado
Ó fado que já não és
Ó fado que já viraste
Da cabeça para os pés

Há quem diga que o fado
Só nasceu para cantar
Quem o diz está enganado
Já vi o fado bailar.

Porventura, deixava-se aqui expresso o saudosismo da dança do fado. Curiosamente, ainda encontramos na obra de Pinto de Carvalho mais esta quadra:

Ó fado, que foste fado,
Ó fado, que já não és,
O fadinho invade tudo
Da cabeça até aos pés.

Discretamente, embora, o fado tornava-se mais literário, mais artístico e perdia muito do seu carácter popular. Popular urbano, acrescentaremos, porque a cantiga popular rústica ou rural tem outra génese, outras raízes e outra riqueza intrínseca.
Finalmente, consta que na noite de 3 de Maio de 1873 (8) houve no Casino Lisbonense o primeiro concerto público de guitarras, em que chegaram a interpretar-se trechos de óperas famosas. Este evento adquire particular significado se recordarmos que foi esta a época das famosas Conferências Democráticas do Casino, no mesmo local (antiga Rua da Abegoaria, actual Largo Rafael Bordalo Pinheiro), onde pontificaram homens como Antero de Quental, Ramalho Ortigão e Eça de Queirós, entre muitos outros que discutiam filosofia, política, literatura e artes, em geral. É por isso que se fala da “geração de 70” e de “Os Vencidos da Vida”, mas o assunto não é para aqui.

(continua)

Manuel Paula Maça
manoel.maza@gmail.com


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